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O Reino de K@ abre as portas para Mistress Bela… Irreverente, determinada, segura de si, ela nos conta sobre sua vida e seus projetos. Demonstra com objetividade o seu modo de ser BDSM , sem subterfúgios. sem máscaras. É com muito prazer que apresento a brilhante entrevista que ela me concedeu.

De antemão agradeço a você Bela, pela enriquecedora contribuição. Saudações SM. Mestre K@!

 

01-Qual foi o seu primeiro contato com o mundo BDSM?
Eu com certeza nasci BDSM. Tive uma infância de ouro, o que contradiz muitos psicólogos que relacionam maus tratos na infância e traumas com desejos sadomasoquistas. Foi durante a infância que algumas vontades 'diferentes' permearam meus pensamentos. O meu primeiro contato com o mundo BDSM foi solitário, nas brincadeiras com amigos e amigas, isto tudo sem que nós tivéssemos a mínima idéia que aquilo que fazíamos tinha nome e eram iniciações a várias técnicas desenvolvidas mais tarde. Não imaginávamos que outras pessoas poderiam gostar das mesmas coisas e muito menos organizarem-se em comunidade. Os filmes, desenhos ou mesmo peças teatrais despertavam uma sensação de curiosidade, desejo e voltades inicialmente mentais, sem que o fisico até então tivesse qualquer resposta à estes estímulos. Lembro-me de uma vez achar um gibi, que em sua pagina central apresentava uma verdadeira masmorra, com diversos equipamentos e homens e mulheres presos á eles, sofrendo diversos tipos de torturas. Passei semanas olhando diariamente as mesmas paginas do referido gibi, sentindo com isso um prazer que alimentava meus desejos. Os anos se passaram e no mundo em que fui criada jamais nem sequer ouvi falar em bdsm, até que comprei a revista da folha que continha classificados e entre eles um mestre com seu escravo procuravam uma parceira para sessões SM. Á partir disso comprava semanalmente o jornal no domingo apenas para ler este anuncio e com isso imaginar o que exatamente seria isso e como seria ter esta experiência. Como não se controla desejos, fui em busca do anuncio e conheci duas pessoas maravilhosas que me iniciaram neste mundo rico em conhecimento, cultura e técnicas. Muito diferente da idéia que muitos possam ter sobre o sadomasoquismo, trata-se de algo que requer um controle pessoal imenso, além de muito estudo e troca de experiências. Foi em busca desta troca de experiências que conversando no chat da uol me indicaram as salas de sadomasoquismo. Aí comecei minha caminhada que já dura 12 nos. Portanto, meu primeiro contato com o mundo organizado do sadomasoquismo foi no antigo Valhala de Barbara Reine, onde vim posteriormente a ser sócia.

02-Como foi se descobrir switcher?
Eu nasci switcher. Mas preferi iniciar minhas práticas como escrava, apesar da personalidade forte e da capacidade do domínio psicológico faltava-me a prática e a experiência. Foi apenas após aprender em diversos workshops, palestras e em conversas informais a arte BDSM que resolvi receber escravos e dominá-los. Mas jamais deixei me levar pela presunção de ser apenas uma Rainha. Eu sempre me dei o direito de jogar dos dois lados, independentemente da opinião de terceiros. Conheci muitos Mestres e Rainhas que se aprisionaram pelo medo de críticas alheias e ao sentir desejos submissos limitam-se á quatro paredes. Outros obviamente não tem estes desejos e vivem suas escolhas de forma completa e em comunidade.

03-Como vê as questões polêmicas, como: empréstimos, dominadores com mais de uma escrava, ciúmes e carência nas relações BDSM?
Para mim, nada disso é polêmico e nem para as pessoas com quem até hoje convivi. Já emprestei e fui emprestada. Tenho mais de uma escravo. Sinto ciúmes e também já passei por momentos de carência em minhas relações. Somos humanos e o que nos torna SM é justamente uma liberdade maior que falta no mundo baunilha. Então quando digo que em determinado momento de minha vida SM tive 2 Donas ao mesmo tempo, não quero ouvir críticas, apenas passar algo que vivi e que foi maravilhoso para mim. Sendo que outras pessoas podem perfeitamente experimentar este e outros tipos de experiências que são unicas e ricas. Não há forma pronta para o BDSM, muito embora algumas coisas sejam imutáveis, sempre nos surpreendemos com novas adaptações… o mundo gira, com o sm não é diferente.

04- Pelo que me lembro, você logo que entrou no BDSM, acabou se tornando empresária, como separa a empresária da fetichista ou as duas funcionam juntas 24/7?
Nunca fui empresária. Se o fosse, já teria desistido no primeiro momento. As pessoas tem muita dificuldade de entender que há despesas grandes para se ter um local exclusivo Seria tudo mais fácil abrir a casa para os cuiriosos como um point onde o sadomasoquismo e fetiches fosse . O Dominna sempre foi exclusivo para bdsm e fetiches. Mais do que um simples empreendimento o Dominna sempre foi meu sonho e acredito que o sonho de muitos que fielmente colaboraram para que ele se mantivesse aberto por 8 anos. No Dominna sempre existiu a fetichista, jamais a empresária. Empresários não fazem o que eu fiz, e o que as pessoas que me cercavam fizeram. Para se manter uma casa SM não basta ser empresário, mas sim, ter um amor incondicional pela cultura SM e pela defesa persistente de um modo de vida que deve ser valorizado e respeitado. O SM está mais para religião do que para empreendimento. Esta sempre foi minha visão. Eu sempre viverei meu SM, tendo o Dominna ou não. na verdade o Dominna fechou sua sede, mas os encontros e a Comunidade que sempre frequentou nossa casa continuam a se encontrar… desta forma tudo continua igual, com a unica diferença que hoje tenho muito menos despezas e muito mais liberdade de tempo.

05-Depois de mais de dez anos no meio, como você vê o BDSM no Brasil?
Bem, pode desagradar á alguns o que vou falar, mas paciência. Eu jamais fiz algo para agradar a quem quer que fosse, exceto a mim mesma. Vejo hoje um BDSM no caminho do amadurecimento. Qualquer comunidade precisa de atritos, de pontos de vistas diferentes, de debates, de rachaduras, para futuramente valorizar a união, o perdão, a vontade de construir algo organizado para viver e conviver em paz. A maravilha da guerra é que ela nos faz valorizar a paz. Apenas a fome nos faz saber a impotância real de um prato de comida e só o nada que virou a comunidade BDSM do Brasil fará com que as pessoas deixem as duras críticas de sempre para levantar as mangar e fazerem algo que presta. Aliás… eu quero chegar a ver algo parecido com que o Dominna foi um dia. Desejo usufruir deste local, não mais como dona, mas como cliente e confrade. Quem sabe esse lugar não virá e surpreenderá à todos, até a mim mesma. Eu sinceramente desejo que isso ocorra pois é dificil que sobrevivamos sem um local fixo onde possa-se conversar, sentar e olhar os outros nos olhos. Preocupa-me apenas os aproveitadores, que não fazem parte da comunidade mas agem como tal, sangrando pessoas em festas sem a menor preocupação de explicar os cuidados e perigos. Enfim, quem é SM de verdade se reconhece.

06-Fale-nos um pouco sobre essa nova fase itinerante do Clube Dominna.
Embora eu fosse Dona do Dominna, não tinha a liberdade que eu gostaria e cansei de recusar convites de encontros em outras cidades, estados e até países. Minha vida estava restrita á dedicação do Dominna. Já não tinha vida social e tudo aquilo que adoramos fazer em finais de semana. Era hora de parar. Agora posso estar quando e e onde eu quiser… Isso é a real liberdade.

07-Porque da mudança de rumos?
Primeiramente porque cansei de ser alvo, tanto de denúncias anônimas quanto comentários maldosos e falsos de concorrentes. Cansei de ter festas desmarcadas em chats sem que isso não fosse verdade. Meus clientes era constantemente chamados de feios, gordos e velhos, sendo que estes mesmos clientes freqüentavam os concorrentes. Creio que estas coisas fazem com que mudemos..

08-Como avalia o resultado do primeira festa do Ano?
A Festa foi maravilhosa.. E já estamos caminhando para a terceira Festa. Agora não mais em salões, mas com um parceiro que acredita em nosso trabalho e investe em nossa idéia.. A casa escolhida foi a Kitsch. Outro local que adoramos é a Code Club. Serão nossos eternos parceiros.

09-O Projeto tem como objetivo promover festas em outras cidades que não seja São Paulo?
Fizemos um encontro em Ribeirão Preto que foi uma delícia. Eu ainda estou reformando minha casa de praia que será palco de muitos eventos no litoral de São Paulo. Já estou conversando com pessoas de todos os Estados para parceria em Festas. É minha intenção conhecer o Brasil inteiro e meus queridos amigos que antes eram virtuais e em breve serão reais.

10 - Mistress Bela hoje domina e é dominada? Fale sobre seus relacionamentos e conte-nos o segredo de manter relações duradouras.
Hoje sou 100% Dominadora. A parte Dominada está bem adormecida e quero que continue assim. Estou numa fase muito mais Mistress que outra coisa qualquer.

11-Finalizando, dominação física ou psicológica?
Nada se faz sem a dominação psicológica. É ela que faz com que os limites aumentem, a entrega se faça e cresça a confiança na relação. 1000 vezes a dominação psicológica.

Agradeço a oportunidade e peço mil desculpas pela demora, mas queria estar bem tranqüila para me dedicar às suas respostas, querido Mestre K@.

Abraços,  Mistress Bela

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