Vibrador

De instrumento terapêutico a eletrodoméstico, a curiosa história do vibrador, um dos acessórios eróticos mais populares que existem. Por klarissa { K@ } 

  

Talvez você nunca tenha ouvido falar de George Taylor, mas, com certeza, tem muito a agradecê-lo, especialmente se for do tipo que não afina diante de um brinquedinho sacana, desses oferecidos em sex-shops. Pois bem, ele é o pai do The Manipulator, uma engenhoca movida a vapor, meio desajeitada, mas útil, patenteada em 1869. O primeiro vibrador da história entrava em cena.

 

 

Sua criação é uma das passagens mais curiosas da evolução medicina e não tem ligação direta com o erotismo. Ou melhor, tem... Mas não tem. O aparelho, na verdade, era um auxílio precioso aos doutores da época, que andavam com os consultórios congestionados por conta de uma doença historicamente associada às mulheres: a histeria. Originada no ventre, a doença era caracterizada por um conjunto de sintomas, que alinhava irritação, insônia, ansiedade, dores de cabeça, falta de apetite etc... etc... etc...

 

E o tratamento mais eficiente a essas atormentadas damas - solteiras ou casadas, jovens ou maduras, plebeias ou nobres - era a massagem vulvar, aplicada em consultório. Em bom português: o médico masturbava a paciente até que ela atingisse o "paroxismo histérico", um estado de espasmos e contrações, acompanhado de intensa lubrificação que aliviava temporariamente os transtornos doença. Parecem familiares esses efeitos? Pois é, o orgasmo feminino demorou para entrar no vocabulário técnico ou popular. Aliás, só em 1952, a psiquiatria dissociou tais manifestações de doença.

 

Acontece que a histeria, sendo considerada um mal crônico, levava as pacientes frequentemente aos consultórios, o que mantinha os médicos ocupados em tempo integral. Algumas delas demoravam horas para atingir o “paroxismo histérico” e as filas para o tratamento só cresciam. Os profissionais chegavam ao fim do expediente extenuados e com dores intensas nas mãos, nos pulsos e nos braços, sem ter feito outra coisa a não ser massagear clitóris. Estavam sendo apresentados às agonias das Lesões por Esforço Repetitivo, a Ler. Definitivamente, não era fácil acalmar “o animal dentro do animal”, como Platão, 400 a.C., se referia ao útero, já tateando os mistérios escondidos no ventre feminino. Alguma coisa tinha que ser feita.

 

 

Aí está a real contribuição de George Taylor. Ao resolver um problema técnico de procedimento médico, o The Manipulator acabou alcançando a libido feminina. Com ele iniciou-se um esforço maior para tratar o corpo da mulher até então visto como uma máquina reprodutora. Onze anos depois, em 1880, surgiu, com a mesma função, o vibrador movido a manivela, inventado pelo inglês Joseph Mortimer Granville, que também teve relevância do ponto de vista industrial.

 

 

Mas o principal marco na folhinha aconteceu mesmo no começo do século XX, precisamente, no ano de 1902, quando a empresa Hamilton Beach, uma bem-sucedida fabricante de equipamentos para cozinha, lançou uma grande novidade: o vibrador elétrico. O acessório que dava sossego ao que os gregos chamavam de “útero ardente” nos consultórios agora podia ser levado para casa. Foi o quinto eletrodoméstico da história. Nos anos 10 havia mais vibradores dos lares americanos do que torradeiras de pão, outro sucesso comercial da época. E ainda não havia nenhuma associação a prazer sexual, embora o “paroxismo histérico” não fosse outra coisa.

 

 

Ao contrário do que ocorre hoje, quando o vibrador é guardado a sete chaves, longe do alcance da empregada, das visitas e das crianças, naquela época ele podia ficar exposto na bancada do banheiro, na penteadeira do quarto, sobre o criado-mudo. Afinal, tratava-se apenas de um recurso terapêutico. A propaganda veiculada em revistas e jornais alardeava uma lista de utilidades do aparelho, todas ligadas à saúde: “Instrumento pra tensão e ansiedade feminina”, “A vibração proporciona vida e vigor, força e beleza” e assim por diante. Nenhuma menção a orgasmo, a satisfação erótica, a libido... Nada.

 

Mas, afinal, quando o vibrador deixou pra trás a missão de curar o incurável e virou essa fonte de sensações prazerosas explorada em praticamente todos os extratos eróticos, seja no BDSM, no GLS, no mundo baunilha? É consenso dizer que a indústria da pornografia foi pioneira em associar “paroxismo histérico” a orgasmo, reposicionando o uso do acessório. Os filmes eróticos dos anos 20 já mostravam as mulheres se divertindo com o vibrador. E nas décadas de 60/70, não se falava mais em saúde e, sim, prazer sexual. Não demorou muito para que setores conservadores e religiosos da sociedade se sentissem incomodados com a brincadeira e rebaixassem o vibrador a objeto obsceno condenado a viver na surdina.

 

Mas ele nunca deixou de ser fabricado. Hoje, o The Manipulator é um vovô caduco perto de seus modernos descendentes. Há formatos, cores, velocidades e tamanhos para todas as fantasias. Alguns itens são luxuosos, chegam a ser confeccionados em ouro. Outros proporcionam massagens em vários pontos erógenos ao mesmo tempo. Há peças de design exclusivo, desenvolvidas por equipes altamente gabaritadas. Modelos com cheiros, sabores e texturas a escolher. Opções para uso interno, acionadas a distância por controle remoto, perfeitas para excitantes torturas a dois. Ah, sim, o clássico “consolo”, que reproduz o pênis em diversos calibres e movimentos, está longe de ser aposentado. Ao contrário, continua exibindo um desempenho atlético de vendas.

 

E está totalmente ultrapassada a ideia de que o vibrador, ou massageador, é um recurso para mulheres sozinhas ou gays. É também. Mas, para a felicidade geral da nação, é crescente o número de casais ou grupos (de todas as modalidades) que não se inibem em incluir a peça no kit de delícias indispensáveis. Afinal, uma vibraçãozinha a mais no momento certo torna qualquer papai-mamãe mais interessante. Obrigada, George Taylor!

 

 

Dica: A história do vibrador é contada no filme Histeria, de Tanya Wexler, com Maggie Gyleenlaal (Secretária) e Hugh Dancy. Disponível de graça na internet.

 

Fontes:Diplomatica do Prazer, Mulher Sexualidade Feminina e  Super Interessante 


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